quarta-feira, 7 de novembro de 2012

EXTRA - Cosmópolis



A ideia pra esse blog nasceu alguns meses atrás. Através de conversas com dois  amigos conhecidos pela internet, eu (Don Healy II) convidei eles para participação na autoria dos textos. Graças à possibilidade do anonimato na rede, cada um de nós adotou um pseudônimo. Dexter Morgan (vivendo em SP) escolheu seu alter ego inspirado na famosa série de televisão, e Meg Simpson (vivendo no RS) escolheu sua nova identidade devido a uma mistura de interesses. Sendo essa uma postagem extra (saindo do padrão semanal que estipulamos desde o primeiro post), achamos interessante abordar o filme “Cosmópolis” (de David Cronenberg e que nos impactou com uma agradabilíssima surpresa), com dois textos especiais, cada um com seu ponto de vista sobre a obra. Enjoy!

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Saía em 2003 da mesa do romancista Don DeLillo o romance Cosmópolis. Uma aventura da era digital, remanescente de uma geração ultrapassada, relembrada apenas como um bando de bêbados mimados e descontentes com as próprias vidas. A técnica havia desaparecido, mas o instinto e a ideia continuavam ali, pulsando como algum órgão sujo num conto de Bukowski. Escondido na escrita clara de DeLillo estava a o estilo que vive há décadas, e foi o diretor e roteirista David Cronenberg que precisou perceber isso.

A geração de um Burroughs nu, um uivante Ginsberg e um perdido Kerouac foi trazida de volta à vida através da magia do cinema. Nenhuma relação com o lançamento em película de “On the Road” foi necessária pra isso. A adaptação cinematográfica de Cosmópolis (que Cronenberg, com extrema fidelidade e, ao mesmo tempo, dando o toque pessoal com surpreendente profundidade) é a manifestação moderna do passado que consegue juntar Sal Paradise (protagonista de On the Road) e Ulysses (apresentação um tanto supérflua, mas podemos lembrar dele através das páginas de James Joyce) em um único personagem com extensos problemas de egocentrismo e negação do próprio mundo, e suas tentativas patéticas de entender e se aproximar de quem o cerca. Era recurso comum na geração beat usar o mundo como uma metáfora para os problemas do próprio mundo, expondo principalmente o lado cruel e doente das pessoas que aqui habitam. O descontentamento com as ideologias agressivas que sempre exigiram a palavra final era manifestado através de nervosos pensamentos disfarçados num oceano de caos, metáforas em conflito e adjetivos contraditórios. Hoje temos um mal constante que se arrasta pelas atitudes humanas, chamado “indiferença”, o que, convenhamos, é um tema difícil de se abordar. Como combater uma característica tão intensa que, por si só, impossibilita qualquer reação aos ataques? A indiferença na qual Cosmópolis se baseia (fidedigna ao mundo em que vivemos) se mostra extremamente fraca, principalmente quando o mundo começa a perceber o resultado dessa nova ideologia. Revoltas nas ruas não são o bastante pra atordoar nosso protagonista, é necessário um mergulho nas ruas que ele tanto evita, escondido em seu universo em que as maiores prioridades são prever o futuro e ofender aqueles que o ajudam. Uma vez que o egocêntrico tenha contato com o mundo real (não o da anarquia sem criatividade, mas aquele em que seus pecados exigem pagamento), aquilo no qual que ele próprio poderia ter se tornado toma forma física, e o único objetivo, o único pensamento que surge com clareza não possui outra escolha que não se concretizar.

O passado não morre enquanto seus crimes não sejam compensados. A geração beat não vai deixar de existir enquanto seus pecados não sejam redimidos. Seu nome pode mudar pra qualquer máscara que soar mais adequada às novas gerações, mas enquanto houve algo pelo que reclamar, ela estará viva, e o único motivo pra isso é que nós, o povo, precisamos dessa possibilidade. A geração beat é a cultura pop.

“The weight of the world is love. 
Under the burden of solitude, 
Under the burden of dissatisfaction 
The weight, the weight we carry is love.”
                        - Allen Ginsberg
                                                                                                                         Don Healy II

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É difícil pensar sobre o quanto a gente está sozinho. Se pensamos na solidão, a ideia em si é nossa companhia, não? Acho que todo mundo já ouviu aquela história de “se você ficar olhando, eu não consigo”. Talvez seja interessante pensar sobre todas as pessoas que esse “você” da piada podem ser.
Assisti há pouco tempo o lançamento “Cosmópolis”, e insisti pra meus colaboradores aqui do blog (assim como tantos outros colegas) que assistissem também. Dou certeza que meus motivos são bem fáceis de entender pra quem conseguir sacar a beleza do filme.
Tentar resumir esse texto ao personagem principal só iria alimentar ainda mais o ego dessa criatura abjeta, então o caminho mais sensato pra seguir tem que ser o do impacto do egoísmo dele no mundo.
Toda essa história clichê de que “tanta riqueza está nas mãos de poucos, por isso temos tanta miséria” é a mais pura verdade, mas uma perda de tempo. Qualquer um quer ser rico, isso não é um desejo que fica só na cabeça dos egoístas e “malvados” (e ter nojo daquilo que queremos ser não é uma coisa muito prática!). Então dizer que “Cosmópolis” é uma narração do resultado do rico mal em choque com o pobre seria uma bela duma hipocrisia. A questão que esse filme explora tão bem é o que passa na cabeça do rico e do pobre numa situação de conflito, não os motivos de cada um. Todos tentamos justificar as decisões do jeito mais inteligente possível, quando só queremos, na verdade, realizar desejos íntimos. Não ficamos lamentando pela camada de ozônio quando desejamos um carro mais potente. Não queremos pensar na criança pobre trabalhando nas roupas de marca que compramos. Se temos raiva do rico, é só porque ele é rico e nós não. Se o rico tem raiva do pobre, é porque o rico sabe o que o pobre realmente quer, que é uma troca de lugar. Se o rico não ajuda o pobre, é por que o rico é cruel, não tem nem quer ter um coração, e se o pobre não ajuda o rico é por que ele tá procurando uma revolta social. Ninguém pensa nos interesses pessoais que guiam todas as nossas vidas. Se escrevemos nesse blog, não é por que queremos que as pessoas tenham contato com alguma coisa que antes não conheciam, é porque queremos escrever!
Esses conflitos que o filme explora são antigos, e não vão acabar nunca. Enquanto existir alguém com alguma coisa melhor que o que você tem, você vai querer ir mais longe também. Não existe ninguém que seja responsável pelos teus problemas, não interessa se você culpa teu chefe, teus pais, teu cachorro ou teu vizinho. O fato é que sempre vai ter dor e tristeza, e enquanto não aprendermos a viver com isso, a única coisa que vamos fazer é bater o pé feito uma criança mimada.
Aos dois ou três anos de idade, fingimos ser adultos. Usamos roupas dos pais, ou coisas parecidas. Aos vinte ou trinta anos, fingimos ser crianças. Será que vai ter alguma hora que vamos assumir a responsabilidade sobre aquilo que queremos e fazemos?

“Confusion hath fuck his masterpiece.”
                        - William S. Burroughs
                                                                                                                   Dexter Morgan


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