A
ideia pra esse blog nasceu alguns meses atrás. Através de conversas com dois amigos conhecidos pela internet, eu (Don Healy
II) convidei eles para participação na autoria dos textos. Graças à
possibilidade do anonimato na rede, cada um de nós adotou um pseudônimo. Dexter
Morgan (vivendo em SP) escolheu seu alter ego inspirado na famosa série de
televisão, e Meg Simpson (vivendo no RS) escolheu sua nova identidade devido a
uma mistura de interesses. Sendo essa uma postagem extra (saindo do padrão
semanal que estipulamos desde o primeiro post), achamos interessante abordar o
filme “Cosmópolis” (de David Cronenberg e que nos impactou com uma
agradabilíssima surpresa), com dois textos especiais, cada um com seu ponto de
vista sobre a obra. Enjoy!
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Saía
em 2003 da mesa do romancista Don DeLillo o romance Cosmópolis. Uma aventura da
era digital, remanescente de uma geração ultrapassada, relembrada apenas como
um bando de bêbados mimados e descontentes com as próprias vidas. A técnica
havia desaparecido, mas o instinto e a ideia continuavam ali, pulsando como
algum órgão sujo num conto de Bukowski. Escondido na escrita clara de DeLillo
estava a o estilo que vive há décadas, e foi o diretor e roteirista David
Cronenberg que precisou perceber isso.
A
geração de um Burroughs nu, um uivante Ginsberg e um perdido Kerouac foi
trazida de volta à vida através da magia do cinema. Nenhuma relação com o lançamento
em película de “On the Road” foi necessária pra isso. A adaptação
cinematográfica de Cosmópolis (que Cronenberg, com extrema fidelidade e, ao
mesmo tempo, dando o toque pessoal com surpreendente profundidade) é a
manifestação moderna do passado que consegue juntar Sal Paradise (protagonista
de On the Road) e Ulysses (apresentação um tanto supérflua, mas podemos lembrar
dele através das páginas de James Joyce) em um único personagem com extensos
problemas de egocentrismo e negação do próprio mundo, e suas tentativas
patéticas de entender e se aproximar de quem o cerca. Era recurso comum na
geração beat usar o mundo como uma metáfora para os problemas do próprio mundo,
expondo principalmente o lado cruel e doente das pessoas que aqui habitam. O
descontentamento com as ideologias agressivas que sempre exigiram a palavra
final era manifestado através de nervosos pensamentos disfarçados num oceano de
caos, metáforas em conflito e adjetivos contraditórios. Hoje temos um mal
constante que se arrasta pelas atitudes humanas, chamado “indiferença”, o que,
convenhamos, é um tema difícil de se abordar. Como combater uma característica
tão intensa que, por si só, impossibilita qualquer reação aos ataques? A
indiferença na qual Cosmópolis se baseia (fidedigna ao mundo em que vivemos) se
mostra extremamente fraca, principalmente quando o mundo começa a perceber o
resultado dessa nova ideologia. Revoltas nas ruas não são o bastante pra
atordoar nosso protagonista, é necessário um mergulho nas ruas que ele tanto
evita, escondido em seu universo em que as maiores prioridades são prever o
futuro e ofender aqueles que o ajudam. Uma vez que o egocêntrico tenha contato
com o mundo real (não o da anarquia sem criatividade, mas aquele em que seus
pecados exigem pagamento), aquilo no qual que ele próprio poderia ter se tornado
toma forma física, e o único objetivo, o único pensamento que surge com clareza
não possui outra escolha que não se concretizar.
O
passado não morre enquanto seus crimes não sejam compensados. A geração beat
não vai deixar de existir enquanto seus pecados não sejam redimidos. Seu nome
pode mudar pra qualquer máscara que soar mais adequada às novas gerações, mas enquanto
houve algo pelo que reclamar, ela estará viva, e o único motivo pra isso é que
nós, o povo, precisamos dessa possibilidade. A geração beat é a cultura pop.
“The weight of the world is love.
Under the burden of solitude,
Under the burden of dissatisfaction
The weight, the weight we carry is love.”
Under the burden of solitude,
Under the burden of dissatisfaction
The weight, the weight we carry is love.”
-
Allen Ginsberg
Don Healy II
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É difícil pensar sobre o quanto a gente está
sozinho. Se pensamos na solidão, a ideia em si é nossa companhia, não? Acho que
todo mundo já ouviu aquela história de “se você ficar olhando, eu não consigo”.
Talvez seja interessante pensar sobre todas as pessoas que esse “você” da piada
podem ser.
Assisti há pouco tempo o lançamento “Cosmópolis”,
e insisti pra meus colaboradores aqui do blog (assim como tantos outros
colegas) que assistissem também. Dou certeza que meus motivos são bem fáceis de
entender pra quem conseguir sacar a beleza do filme.
Tentar resumir esse texto ao personagem
principal só iria alimentar ainda mais o ego dessa criatura abjeta, então o
caminho mais sensato pra seguir tem que ser o do impacto do egoísmo dele no
mundo.
Toda essa história clichê de que “tanta riqueza
está nas mãos de poucos, por isso temos tanta miséria” é a mais pura verdade,
mas uma perda de tempo. Qualquer um quer ser rico, isso não é um desejo que
fica só na cabeça dos egoístas e “malvados” (e ter nojo daquilo que queremos
ser não é uma coisa muito prática!). Então dizer que “Cosmópolis” é uma narração
do resultado do rico mal em choque com o pobre seria uma bela duma hipocrisia.
A questão que esse filme explora tão bem é o que passa na cabeça do rico e do
pobre numa situação de conflito, não os motivos de cada um. Todos tentamos
justificar as decisões do jeito mais inteligente possível, quando só queremos,
na verdade, realizar desejos íntimos. Não ficamos lamentando pela camada de
ozônio quando desejamos um carro mais potente. Não queremos pensar na criança pobre
trabalhando nas roupas de marca que compramos. Se temos raiva do rico, é só porque
ele é rico e nós não. Se o rico tem raiva do pobre, é porque o rico sabe o que
o pobre realmente quer, que é uma troca de lugar. Se o rico não ajuda o pobre,
é por que o rico é cruel, não tem nem quer ter um coração, e se o pobre não
ajuda o rico é por que ele tá procurando uma revolta social. Ninguém pensa nos
interesses pessoais que guiam todas as nossas vidas. Se escrevemos nesse blog,
não é por que queremos que as pessoas tenham contato com alguma coisa que antes
não conheciam, é porque queremos escrever!
Esses conflitos que o filme explora são
antigos, e não vão acabar nunca. Enquanto existir alguém com alguma coisa
melhor que o que você tem, você vai querer ir mais longe também. Não existe
ninguém que seja responsável pelos teus problemas, não interessa se você culpa
teu chefe, teus pais, teu cachorro ou teu vizinho. O fato é que sempre vai ter
dor e tristeza, e enquanto não aprendermos a viver com isso, a única coisa que
vamos fazer é bater o pé feito uma criança mimada.
Aos dois ou três anos de idade, fingimos ser
adultos. Usamos roupas dos pais, ou coisas parecidas. Aos vinte ou trinta anos,
fingimos ser crianças. Será que vai ter alguma hora que vamos assumir a
responsabilidade sobre aquilo que queremos e fazemos?
“Confusion hath fuck his masterpiece.”
-
William S. Burroughs
Dexter
Morgan
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