segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Uma Alusão à Fortuna


É injusto como os processos criativos da mente se comportam do mesmo jeito que nossos processos metabólicos. Quando você sente dor de barriga, a primeira ideia que nos parece sensata é sentar ao vaso sanitário e deixar a natureza seguir seu curso. Mas, por puro azar, horas depois, lhe bate na cabeça a realidade de que você perdeu tanto tempo apreciando o azulejo à tua volta, mas ainda a água embaixo de ti está limpa (ou, pelo menos, tão limpa quanto pode ser a água de tal vaso). Algumas pessoas resolveriam, então, tomar elementos químicos estranhos ao nosso organismo para facilitar a união da vontade com a ação, o que aumenta bruscamente as chances de alcançar a satisfação anteriormente perseguida. Sacaram? Imaginem os Rolling Stones nos anos 1960. É difícil de imaginar que os rapazes escreveram tantas músicas, tão boas, durante tanto tempo, sem sofrer nenhum bloqueio momentâneo. Parece natural imaginar Brian Jones e Keith Richards sentados numa cama suja, num quarto sujo, com os violões na mão, olhos pregados no teto, sem uma única ideia nova que tenha o mérito de ser aproveitada. De repente, olham juntos para a mesa ao lado, e alguma força superior, cósmica, divina, transcendental, algum alinhamento misterioso dos planetas os levam a pensar juntos na possibilidade de fumar aquele cigarro artesanal com alguma substância química (estranha ao nosso organismo) para facilitar a união da vontade com a ação. Minutos depois, a criatividade deslancha. Todo o preconceito com as frases musicais ruins desaparece, uma nota leva a outra, sons horríveis saem dos instrumentos e de suas bocas, mas é tudo motivo de riso. De repente, Jones sente que uma determinada sequência de notas lhe soa bem, mesmo no meio do caos. Richards ainda está em sua própria viagem psicodélica, mas também acha alguma coisa interessante. Cientes de seu estado, seria um desperdício deixar suas mentes alteradas esquecerem essas sequências. Registram-nas de qualquer jeito possível. Gravam, rabiscam, explicam pro seu vizinho, tocam a nova peça ao telefone pra alguma mocinha que foi ingênua o bastante pra acreditar que essa nova música era pra ela, e a grava em sua secretária eletrônica. E assim começa o esboço de algum dos primeiros sucessos dessa mitológica banda.

Não é justo como o processo que nos leva à excelência, ou mesmo ao vácuo criativo, não está em nossas mãos. Estar à mercê da mais pura sorte é perturbador. É claro que na comparação que fiz no parágrafo anterior, tanto o constipado imaginário quanto os (não mais) jovens guitarristas conseguiram cumprir seus objetivos. Insistência por diferentes caminhos foi a saída comum. Mas em nenhum dos casos pode-se dizer que encontrar o caminho não foi uma questão de fortuna. E, no fim das contas, quanto é que não dependemos da sorte?


“There must be something wrong with me
What it is I can’t quite see
I can’t seem to do nothing right!”
                           - Seasick Steve

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